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American Horror Story Asylum – Balanço da 2ª temporada

13 jul

Leia este post ouvindo “Dominique”. Pode não fazer sentido agora, mas quando você assistir à segunda temporada de American Horror Story vai ver que era indispensável o uso dessa música.

Possessão demoníaca, serial killer, loucura, violência, zumbis, nazismo, aliens, abduções, religião, necrofilia, estupro, aborto, homossexualidade, poligamia, blasfêmias e heresias. Alguém em sã consciência acreditaria que uma história daria certo reunindo todos esses elementos? Acho muito difícil que a resposta seja positiva. Mas por mais incrível que possa parecer, essa miscelânea louca deu muito certo em “American Horror Story Asylum”, a segunda temporada da série de terror da FX.

A segunda temporada da série da FX se passa num hospício comandado pela Igreja Católica

A segunda temporada da série da FX se passa num hospício comandado pela Igreja Católica

Como a produção funciona como uma espécie de minissérie, a segunda temporada de AHS não tem qualquer tipo de relação com a primeira. A história, personagens e local onde se passam as tramas são completamente diferentes. O enredo do primeiro ano foi zerado e a segunda temporada é totalmente livre da primeira parte da série. O único ponto em comum é a repetição de grande parte do elenco.

A trama de AHS Asylum se passa na década de 60 em uma instituição mental dos Estados Unidos comandada pela Igreja Católica. O asylum recebe loucos da pior espécie e também pacientes que não deveriam estar por lá. Como a história se passa há 50 anos, numa época em que o mundo era muito mais conservador, vários dos pacientes são internados por motivos que não  causariam quase nenhum problema se vivessem nos dias de hoje.

American Horror Story

Todas as atrocidades imagináveis acontecem em Briarcliff, o hospício de AHS

A mão de ferro da freira que comanda o hospício faz com que o asylum seja palco das mais variadas atrocidades. Torturas e choques elétricos são apenas parte do inferno proporcionado por Briarcliff. Mas isso é a parte light da história, pois o médico responsável pela instituição tem o hábito de fazer testes nada convencionais com seus pacientes (sem o conhecimento e permissão da freira que dirige o local), hábito adquirido nos tempos da Segunda Guerra Mundial, quando Dr. Arden atuou ao lado dos nazistas e fazia os mais escabrosos experimentos com seres humanos.

Além de estarem trancados neste inferno, os inocentes protagonistas também precisam lidar com uma outra freira, que literalmente virou o diabo após um exorcismo realizado no asylum. O demônio se alojou no corpo da mais pura e inocente das mulheres, e esse plot piora ainda mais a vida das pessoas em Briarcliff, que ainda tem o adicional de acomodar o serial killer mais temido do momento, Bloody Face, que retira a pela de suas vítimas ainda vivas e depois usa o material para fazer uma máscara monstruosa. Acrescente a isso uma repórter louca para contar essa história e, acreditem, aliens.

Dr. Thredson é um dos personagens centrais desta temporada

Dr. Thredson é um dos personagens centrais desta temporada

O enredo que num primeiro olhar parece uma bagunça sem propósito é incrivelmente bem amarrado. As histórias absurdas se encaixam perfeitamente e transmitem o que o espectador mais exigente quer: verossimilhança. Estamos falando de ficção, e nesta área tudo pode acontecer, mas desde que aconteça com coerência, e isso AHS tem de sobra.

A série tem um ritmo super veloz, praticamente um videoclipe de 40 minutos (duração média de cada um dos 13 episódios da trama) e nunca deixa a história esmorecer. As atuações são super seguras e com diversos atores que se destacam, como Lily Rabe (irmã Mary Eunice), Zachary Quinto (Dr. Thredson), Jessica Lange (irmã Jude ), Evan Peters (Kit Walker) e Sarah Paulson (Lana Winters), que está particularmente espetacular na segunda temporada. E tem ainda uma participação pra lá de especial de Frances Conroy como “dark angel”.

A participação de Frances Conroy em "Asylum" causa uma pequena explosão na cabeça dos fãs

A participação de Frances Conroy em “Asylum” causa uma pequena explosão na cabeça dos fãs

Para mim American Horror Story é a série da atualidade que melhor cumpre o papel de um produto televisivo, que é divertir a audiência. Divertir no sentido de curtir, “enjoy”, já que a trama é um terror que causa medo e sustos. Apesar do clima tenso e dark, é impossível não se pegar dando risadas ao ver como os roteiristas são inteligentes ao inserir determinados plots e seguir com eles até o fim, sem medo e sem amarras.

Em todos os episódios, ou melhor, em vários momentos de todos os episódios o espectador é surpreendido pela trama. Os plots não são cozidos em banho maria e as viradas das tramas acontecem a todo momento. É quase impossível assistir AHS sem ficar com o queixo caído em quase todos os episódios.

American Horror Story Asylum é uma história para se jogar de cabeça, pois foi isso que os criadores e roteiristas fizeram ao elaborar a segunda temporada. Não há amarras e nem pensamentos politicamente corretos. A transgressão está em vários pontos, como colocar um religioso estendido numa cruz ou uma freira vestindo uma camisola vermelha por debaixo do hábito, um dos momentos mais divertidos da temporada.

Os criadores da série não têm nenhum pudor em brincar com símbolos da Igreja

Os criadores da série não têm nenhum pudor em brincar com símbolos da Igreja

A terceira temporada, “American Horror Story Coven”, estreia em outubro e trará de volta grande parte do elenco dos dois primeiros anos, mas o tema da nova temporada ainda não foi divulgado .

Por Débora Anício

American Horror Story – Balanço da 1ª temporada

16 jun

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Poucas vezes vi o conceito de casa mal assombrada ser tão bem explorado na televisão. O mundo bizarro de “American Horror Story” consegue ser assustador e encantador ao mesmo tempo. E tudo isso devido à qualidade da trama, que parece fazer uma mistura entre o pior e o melhor dos filmes de terror. A série de drama-terror lançada em 2011 pela FX foi muito bem recebida pela crítica e rendeu à Jessica Lange um Globo de Ouro como melhor atriz coadjuvante.

A série de TV é realizada como uma espécie de minissérie, onde cada temporada se passa em um local diferente e com tramas diferentes. A primeira temporada se passa numa casa mal assombrada. Já a segunda, que estreou em 2012, acontece numa instituição psiquiátrica. E a terceira temporada da série, que tem estreia marcada para outubro deste ano, deve girar em torno de acontecimentos diabólicos, mas ainda sem local definido.

A trama da primeira temporada, centrada na família Harmon, nos mostra a tentativa de Ben e Vivien (Dylan McDermott e Connie Britton) em salvar seu casamento. A crise começou quando a esposa pegou seu marido na cama com uma de suas alunas. Para tentar seguir em frente, o psiquiatra decide sair de Boston e comprar uma linda e aconchegante casa em Los Angeles, para onde leva sua mulher e sua filha, Violet (Taissa Farmiga), na esperança de dar um novo fôlego à sua quebrada família.

Porém a família Harmon não sabia que estava se mudando para a Murder House (casa assassina).  Ao aterrissar eu seu novo aconchego, os novos moradores começam a ver coisas estranhas pela bela e antiga mansão construída na década de 20.

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A família Harmon se muda para Los Angeles para tentar uma vida feliz. Isso, claro, sem saber que compraram uma casa mal assombrada

No início da série a confusão dos personagens é transferida para o público, que não faz ideia do que está acontecendo. A edição de cada episódio e os fatos cada vez mais bizarros transformam a cabeça dos personagens e da audiência numa verdadeira zona. É impossível saber o que é real ou imaginação. E muito difícil entender a relação das dezenas de personagens apresentadas com a famigerada mansão. Mas aos poucos a série vai nos dando respostas e nos deixa totalmente a par do que está acontecendo.

Assassinatos, violência, sangue, fantasmas, maldições, halloween, estupro, escuridão, sustos, monstros e milhares de outras coisas estranhas e assustadoras acontecem em todos os episódios. O que deixa a trama dinâmica. Mórbida sim, mas jamais entediante.

AmericanHorrorStory elenco

A história é tão boa que me pegou logo no episódio piloto. E olha que o gênero terror não faz muito minha cabeça. Mas acredito que isso se deva a um roteiro muito bem escrito e amarrado. Afinal, a série não tem a intenção apenas em pregar sustos na audiência, mas contar uma história em 12 episódios. Então todas as bizarrices estão conectadas, para no fim, fazerem todo o sentido na cabeça do espectador.

“American Horror Story” é uma ótima pedida para quem adora terror, e também uma boa opção para quem curte um bom drama. Há cenas assustadoras, mas não tão aterrorizantes a ponto de ser impossível encarar a tela. AHS é um drama-terror que merece ser prestigiado.

Confira o trailer da primeira temporada

Você precisa conhecer It’s Always Sunny In Philadelphia

4 jun
Série de comédia da FX é feita para quem gosta de humor negro

Série de comédia da FX é feita para quem gosta de humor negro

Essa é minha série de humor favorita. E só conheço uma pessoa que assiste, o Zé Vinícius, que me apresentou o show. Não vejo ninguém falando dela e por isso faço um convite, assistam It’s Always Sunny In Philadelphia (IASIP). Com muita loucura e humor negro, IASIP estreou na Fox em 2005 e, três dias depois, foi movida para a FX. Não sei o que houve, mas o grande público deve ter achado a série estranha demais, e de fato é, talvez por isso eu goste tanto. Apesar de pouco conhecida no Brasil, IASIP é uma série de sucesso mantida por seu nicho de fãs. Caso contrário não teria chegado a sua 8ª temporada em 2012 e não teria sido renovada para mais outros dois anos.

IASIP nasceu da necessidade de seu criador, Rob McElhenney. O ator, que também é um dos protagonistas do show, estava com dificuldades em conseguir papéis em Hollywood e pagar suas contas. Então, com uma ideia na cabeça e uma câmera na mão, gravou uma cena em que um cara não sabe o que fazer quando o amigo diz que tem câncer. Esse short film foi produzido com a ajuda de amigos, os atores Charlie Day e Glenn Howerton, também protagonistas da série. O pessoal da Fox gostou do material e topou produzir a história. E vale lembrar que a cena do câncer foi o tema de um episódio da primeira temporada.

Protagonizada por atores pouco conhecidos; Rob McElhenney (Mac), Glenn Howerton (Dennis), Charlie Day (Charlie) e Kaitlin Olson (Dee); a série só conta com um medalhão, Danny DeVito (Frank), que entrou na 2ª temporada. A série é sobre quatro amigos e o pai de dois deles (Frank) que administram um bar na Philadelphia, o “Paddy’s Irish Pub”. Chamá-los de amigos é apenas uma forma de tentar explicar a gangue (como eles chamam o grupo, the gang), porque eles não se amam, não são carinhosos uns com os outros e não se ajudam. Muito pelo contrário, na gangue é cada um por si, sem medir esforços de ferrar com o outro.

Para mim o título da série é uma grande ironia. “É sempre ensolarado na Philadelphia”. Ok, de fato os dias da cidade mostrados pelo show são quase sempre claros e lindos, mas o fato é que a turma só fica no escuro bar. Tem até um episódio que brinca com isso. Eles discutem e bebem na mesa do bar, e Charlie diz pra eles aproveitarem o dia. Aí a cena é cortada e os cinco aparecem no parque da cidade, porém bebendo e conversando as mesmas bobagens. Ou seja, não interessa o ambiente, a iluminada Philadelphia nunca entra na alma da gangue.

Todos os personagens são egocêntricos e possuem sérios problemas de relacionamento, pra não falar distúrbios psicológicos. Para mim IASIP é um ensaio sobre a loucura. Os personagens são metidos, falsos, covardes, narcisistas, ignorantes, manipuladores, mentirosos, preconceituosos, burros, influenciáveis e por aí vai. Um dia parei pra pensar e não vi qualidade em nenhum deles. Mas isso é o legal da série, mostrar como o ser humano pode ser babaca e fazer coisas absurdas. Por ser exibida em um canal a cabo, o elenco/produtores/roteiristas (que são Rob, Glenn e Charlie) têm total liberdade de criação, e isso resulta em uma série corajosa que só fala sobre assuntos polêmicos: racismo, homofobia, pedofilia, aborto, bebês abandonados, barriga de aluguel, nazismo, eutanásia, prostituição, uso de drogas, religião, etc.

It's Always Sunny in Philadelphia

IASIP é um show de acontecimentos absurdos e politicamente incorretos. Como em um episódio que Charlie e Dee vão comer carne humana, em outro que Dee finge que seu imaginário bebê morreu só para ganhar auxílio do governo, ou quando os gêmeos Dee e Dennis fingem ser viciados em drogas para receber dinheiro do governo, ou quando Frank promove um concurso de beleza infantil tentando provar que não é pedófilo, ou quando Charlie cheira cola e come comida de gato para conseguir dormir em seu horrível apartamento, ou quando Mac se apaixona por um travesti e decide esperar até a cirurgia para consumar a relação, ou quando eles viciam um padre em cocaína e fazem o coitado abandonar a batina e viver nas ruas, ou ver Charlie apaixonado por uma garçonete durante oito anos sem nem ao menos saber o nome da garota.

O melhor de tudo é como a série sempre se supera. Adorei todas as temporadas, e achei que ela não podia melhorar mais, apenas manter sua qualidade. Mas os quatro primeiros episódios da 7ª temporada são o supra-sumo da história. É simplesmente incrível e chocante como eles (personagens) pioram e (a série) só melhora.

It’s Always Sunny in Philadelphia é minha série de humor favorita ever. Não só por ser engraçada, mas por ser algo totalmente novo, inteligente e corajoso. Não conheço nenhuma série parecida com IASIP. Para mim a série é revolucionária. O produto é totalmente original e ousado. Afinal é difícil fazer graça com tantos temas polêmicos. Eu assisto à série e sempre me pergunto como eles tiveram coragem de tocar em determinado assunto.

IASIP é amada pela crítica e desprezada pelo grande público, que está acostumado à velha fórmula das sitcoms americanas. A série da FX é para um público reduzido, público que não necessita da claque (aquelas risadas e aplausos de fundo de cena) para entender uma situação e rir do quão absurda ela é. A série é para um público que gosta e entende o humor negro sem se sentir ofendidinho. É pra quem sabe rir de si mesmo e ver as piadas escondidas por trás de assuntos polêmicos. É para quem gosta de pensar um pouquinho mais. Desculpe a frase, mas It’s Always Sunny in Philadelphia dá um tapa na cara da sociedade toda semana. Vocês não têm ideia do que estão perdendo, uma das melhores comédias da década. Pra mim, a melhor de todos os tempos.

 

Por Débora Anício